quarta-feira, 12 de julho de 2017

Acerolar




De onde vem a doçura? Das flores do quintal dos meus avós. Se das flores as abelhas fazem o mel, é desse colorido que vem o doce. 


Além de comer flores do jardim, também comia frutas, como acerola - de uma árvore ao alcance das mãos da infância. Enquanto colhia os frutos, meu avô contou que cada acerola valia por 15 laranjas em vitaminas. E os cálculos começaram. A cada bocada, uma soma. Uma acerola, 15 laranjas, duas acerolas, 30 laranjas, três acerolas, 45 laranjas... E o sabor se multiplicando. 


Desse quintal enraizado na memória, frutificam lembranças cítricas, ultra-alaranjadas, para acerolar a vida. E cada fruta guarda dentro de si uma multiplicidade de vitaminas; cada semente, um pomar de possibilidades.





domingo, 4 de junho de 2017

Velas




Velas aquecem.

Velas aconchegam.

Velas iluminam olhos perdidos na escuridão.


Velas acendem olhos apaixonados.


Velas brilham, queimam, ardem no altar em devoção.


Ele chama e multiplica a Sua chama.


Velas, com suas lágrimas quentes e silenciosas, consolam corações enlutados.


Velas celebram o Natal e os aniversários.


Velas testemunham o fechar de olhos, o nascer do sonho e o soprar no bolo: 


apagadas e descartadas.

Velas não têm sonhos

(ou não deveriam ter).


Apenas, por enquanto, são.

Cresce a chama.

Diminui a vela.

Quanto mais Ele cresce,

Mais ela diminui.

Cristo chama.

O sopro final.

E cada gota de cera


nEle, vale a pena.


Vale a vida da vela inteira


Que se vai.







domingo, 23 de abril de 2017

Frestas




Em um sobressalto, Sun hee jogou o livro para baixo da cama, levantou-se e aproximou-se da janela. Com os dedos, de leve, abriu uma fresta na persiana. Nada lá fora. Um susto tão grande por um pulo de gato, uma queda, um barulho. Da fresta, um rio de luz percorreu o quarto. Ela respirou fundo. Ar de quem se esvazia de angústia. Ar de alívio.

Voltou para perto da cama. Ajoelhou-se. Esticou o braço. Dos confins, pescou a Palavra e continuou a ler: Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Conforme a sua grande misericórdia, ele nos regenerou para uma esperança viva, por meio da ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos - 1 Pedro 1:3.

Saiu de casa para sua rotina de domingo. Era Páscoa, mas tudo funcionava como em um dia qualquer, como se nada fosse ou pudesse ser diferente. Mas era Páscoa.

Quando atravessou a rua em frente ao hospital, passou por Taeyang. Olharam nos olhos um do outro e sorriram – para eles tudo era diferente – um sorriso de Feliz Páscoa, sem qualquer palavra, apenas a Palavra queimando por dentro. E pelas frestas dos olhos alongados, um rio de luz iluminou ainda mais aquele dia de esperança viva, de travessia, de Páscoa. Em margens opostas, seguem a navegar e, feito faróis, a iluminar dias sombrios.

Que aqueles que perseguem cristãos passem a seguir a Cristo. Amém.


*Nossos irmãos norte-coreanos sofrem severa perseguição. Para mais informações sobre a Igreja Perseguida: https://www.portasabertas.org.br/

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Filhos



Você está grávida? Perguntou uma aluna de cinco anos. Respondi que não. Talvez tenha sido minha blusa solta e larga. Outro dia, a mesma pergunta e a mesma resposta. Outra aula, previsões para o futuro: você vai ter muitos filhos, muitos, muitos, muitos filhos, vai explodir de tantos filhos! Assustador. Aulas depois: queria que você fosse a minha mãe. Difícil de comentar sobre isso com o estômago enrolado.

Tempos depois, de certa forma, explodi de tantos filhos. Na verdade, não consegui tratar mais de duzentos alunos como filhos, tive dificuldades até com os nomes e isso cortou meu coração e me fez repensar a escolha profissional.

Quando criança, tinha uma turma de Carolinas para chamar de Carol – minhas bonecas. Sempre sonhei em ser mãe, mas vejo que estou ficando para titia.

E ser tia é maravilhoso! É ver alguém crescer de perto,  adormecer nos braços, acordar brincando. É ler, contar e ouvir histórias. É dizer não e falar sério mesmo quando a vontade é de soltar uma risada de uma traquinagem. É secar lágrimas e acalmar. É ser recebida com um sorriso, uma corrida e um abraço apertado. É ouvir o próprio nome pra lá e pra cá.  É ser convidada para jogar bola, pegar água no mar, nadar, subir montanhas de areia,  construir prédios, tocar piano, cantar. É ser questionada se está feliz. E responder com um sim de coração.

Deus sabe o que faz. E o que não faz.

Ele supera toda e qualquer expectativa.

 “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que O amam” – 1 Coríntios 2:9.

Somos Seus filhos. Muitos e muitos e muitos filhos. Cada um chamado pelo nome.







quarta-feira, 12 de abril de 2017

Jardins da Palavra



Jardim do Éden. No paraíso, florescia a intimidade em plenitude, entre Criador e criação, entre todas as criaturas. Palavras cheias de vida, de poesia. Dentre a diversidade de frutos do bem, o do conhecimento do bem e do mal foi escolhido, na sedução do orgulho e do poder. Alimento que corrompeu o corpo, a alma e os relacionamentos: morte, lamento e dor.

Jardim do Getsêmani. Na escuridão, em humildade e rendição, Jesus se dobra e ora. Maturidade de oliva prestes a ser moída e transformada em óleo para ungir o Universo e redimir a Criação. Gotas de sangue expiram a morte, o lamento e a dor.

Jardim do Gólgota. Cristo, plantado no alto do monte, por sobre uma montanha de ira e de punição, renasce a comunhão. Ele é semente que morre e germina vida eterna para quem nEle crê -  dEle e para Ele todas as flores e todos os frutos, cultura do Santo Espírito.


* Fotografia do Jardim do Getsêmani: 
http://www.projectrenovation.org/wp-content/uploads/2012/05/gethsemane.jpg

terça-feira, 11 de abril de 2017

Olhos de coruja




Inácio e sua amiga coruja brincavam no quintal. Ele corria. Ela voava. Até que a coruja quebrou a perna.

Inácio cuidou da coruja. Enfaixou sua perna: voltas e voltas de tecido e de afeto. Enquanto cuidava dela, percebeu uma mancha em seu olho, na íris. Quando a perna da coruja ficou curada, a mancha de sua íris desapareceu.

O menino cresceu e estudou Medicina. A cada dia, olhar nos olhos das pessoas ficava mais importante. Olhar nos olhos dos pacientes ajudava-o a identificar suas doenças. Olhar nos olhos da amiga coruja tornara o menino-médico mais sábio.


*Texto inspirado em uma história um tanto lendária sobre Ignatz von Péczely.


** Imagem extraída do vídeo da canção “Know me well” de Roo Panes: 





Owl’s eyes



Ignatius and his owl friend used to play on the backyard. He's run, she's flown - until the owl broke her leg.

Ignatius took care of the owl. He bandaged her leg: twists and turns of fabric and affection. While he was taking care of her, he perceived a spot on her eye, on the iris. When the owl’s leg was healed, the spot on her iris disappeard.

The boy grew up and studied Medicine. Each day, looking in people’s eyes has become even more important. Looking in the patients’ eyes helped him to identified their diseases. Looking in his friend’s eyes had made the doctor-boy wiser.

* Text inspired in a pretty legendary story about Ignatz von Péczely.

** Image from the video of the song “Know me well” by Roo Panes: