Quando criança, com meus pés sobre os do meu pai, dançávamos valsa na
cozinha, preparando o café da manhã. Assim, seus passos eram meus passos. Nossos
passos andavam juntos, no mesmo ritmo. Cresci. Já não sei se ele me suportaria sobre
seus pés, mas há quem me faz levantar da cama para mais uma dança, mais um dia
de vida, a cada manhã.
terça-feira, 30 de julho de 2013
terça-feira, 19 de março de 2013
- Conta uma história?
- Ahm...
- Uma nova.
- Nova?
- É... uma que ninguém nunca ouviu antes.
- Inventar agora?
- Isso!
(...)
Obrigada, mãe, por aceitar o desafio e inventar aquela história do Pingo
e do Batata, por rechear minha vida com essa e outras tantas histórias, antes
de dormir, como naquele dia, ou entre
uma cuia e outra, entre um café e outro, um dia após o outro.
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quinta-feira, 7 de março de 2013
Quando lembrança vira presente.
Entre linhas nos
posicionamos. Lembro bem daquele dia. A chuva caía sobre todas as raias. Com o
coração acelerado, aguardávamos o instante da largada, para, então, disparar,
em direção à linha de chegada.
Lá estava alguém para
marcar o tempo e, naquela ocasião, você estava lá também, com um guarda-chuva
aberto.
Não lembro se cheguei por
primeiro ou por último, nem em quantos segundos; recordo, apenas, da ternura de
um abrigo na linha de chegada, de um olhar amigo depois de correr na chuva.
Obrigada, pai.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Aurora
Ela vem aos sábados, sem igual. Com um brilho cansado e aroma de café, entra na sala, puxa uma cadeira, senta do outro lado da mesa, diz umas palavras do mundo de fora e amanhece em mim um fio de esperança. Não sei o que dizer, nem sei se quero dizer alguma coisa, prefiro ouvir sua voz, sua paz, mais uma vez. Ela abre o livro, lê algumas linhas. Essas linhas me envolvem, às vezes, me tecem, noutras me desfiam. É, não são como as grades essas linhas. Recebi uma porção delas encadernadas, só que vazias, para preencher comigo – o que faço, enquanto Aurora não chega. O tempo está passando escuro, assim, sem Aurora. Estou exausto de mim. E ela não chega com sua voz, sua paz, mais uma vez.
“Só vivendo alguns meses com os prisioneiros é
possível conhecer a sua vida. Só levar doações para os prisioneiros não é o
suficiente. Dessa maneira eles se tornam máquinas. É preciso ouvi-los e trocar
pensamentos ”
Elsa Brändström
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
- Te perdoo.
- O que você disse?
- Te perdoo.
- Como assim?
- Te perdoo.
- Mas não se perdoa no
meio de uma briga.
- Claro que não: aí a
briga chega ao fim.
FIM
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Três tempos
Amanhã vamos morar bem longe e não quero esquecer
isso. É que quando o Lipe, meu mano, nasceu ganhei uma gaitinha de boca.
Primeiro não entendi. Soprei pra lá e pra cá, depois toquei num canto. É que o
Lipe nunca gostou da minha música. Cheguei a pensar que o presente era para
incomodar mesmo, coisa de irmãos, até que a mãe falou firme assim - Lia,
querida, vai tocar lá fora. Aí comecei a sentar na escadinha ali da porta da
frente. A dona Maria passava e sorria e balançava a cabeça.Outro dia até atiraram uma moeda. E
a música virou profissão. Comecei a tocar sempre no mesmo horário para
ver se recebia meu pagamento, mas moedinha nunca mais. No fim da tarde ia
lá soprar música mesmo assim, pra quem quer que fosse, menos pro Lipe
que começava a chorar.
Um dia, um menino com roupa de brincar na terra,
ficou remexendo na lixeira, acho que ele tinha perdido alguma coisa, sei lá.
Continuei a tocar, daí, uma hora, ele parou e sentou encostado no poste de luz.
Acho que estava descansando. No tarde seguinte, ele passou por ali de novo, deu uma
olhada para dentro da lixeira e sentou encostado no poste de luz, de certo
para descansar. Isso aconteceu de novo e de novo e de novo, várias vezes.
No fim de tarde, ele sempre descansava ali,encostado no poste de luz, e eu na
escada, soprando música. Teve um outro dia, assim com o céu meio verde de fim de tarde depois de chuva, achei que ele nem ia
passar por ali, só que, do nada, ele apareceu e sentou no mesmo lugar e
sorriu para mim, talvez quisesse mostrar a janelinha. Devolvi um sorriso
escondido atrás da gaitinha. Essa era uma das melhores horas do dia, quase
melhor do que a da sobremesa. Olhava pela janela par ver quando o céu começava
a ficar colorido. Era fim de tarde, início de música, só que hoje foi fim
de música, quer dizer, da minha música na escadinha, porque amanhã vamos
morar bem longe.
Quando o menino de roupa de brincar no barro
apareceu, toquei mais um pouco e me levantei. Caminhei em direção ao poste
de luz. Estiquei o braço com a gaitinha. Ele arregalou os olhos.
Expliquei - É pra você. Ele pegou a gaitinha. Continuei - é que vou
morar bem longe dessa escadinha, aí não vou mais tocar aqui essa hora. Ele
perguntou - Não vai sentir falta? Perguntei - De tocar aqui? E ele
disse - É... Fiz que sim. E da gaitinha? - ele quis saber. Suspirei: Nem tanto.
* * *
- Como comecei
a tocar? Ah, foi meio engraçado. Eu era acostumado a achar as coisas e pegar,
sabe? E as pessoas descartam cada coisa!
Um dia achei um daqueles disquinhos de uma música só, guardei. Nunca ouvi a tal
da música, porque não tinha o aparelho, mas guardei comigo. Bom, mas com a
gaitinha foi diferente, ela não caiu do caminhão de mudança.
- É, foi um
presente, de uma menina. Se eu te contar é capaz de dizer que é coisa de filme,
de novela, sei lá, mas aconteceu – o que posso fazer? Essa menina, ela era bem desafinada mesmo,
sempre à procura do tom. Quando vi aquela criatura tocando gaitinha de boca,
toda miúda em frente a um casarão, tive que parar. Fiquei ali ouvindo. Logo
percebi que ela me viu e continuou a tocar como se fosse para uma multidão. No
outro dia, voltei. E no outro também. Assim foi até que ela teve que se mudar.
- Sim, mas como eu disse, não deixou cair a gaitinha do caminhão de mudança. Ela me
entregou. Não sei se dá para dizer que foi um presente, mas também não foi um
simples descarte. Enfim, ela disse que sentiria menos falta da gaitinha do que
de tocar ali e, quem sabe, daquela multidão que eu formava com um único par de ouvidos.
* * *
Aquela
gaitinha era menos um presente do que uma tentativa de contornar o ciúme –
afinal, não é nada fácil deixar de ser o bebê da casa. O objeto acabou por
abrir portas, já que a Lia queria tocar assim, para fora mesmo, toda aquela
música. Tocou. E mais: foi ouvida com uma atenção por pouco inesperada. Depois,
aguardada.
E para o
Carlos, bom, nem preciso falar quantas portas abertas resultaram daquela
gaitinha em suas mãos. Ele não costumava passar por aquela rua, mas depois de
ver a cena da menina com ares de artista, mudou de rota. E o fim de tarde
passou a ser um interlúdio na volta, sem pressa, para a casa. E quando Lia se mudou
as coisas não voltaram a ser como eram antes. Ela já não morava mais ali, mas
as músicas ao entardecer continuaram.
Tomara que a
Lia consiga sair mais cedo do trabalho hoje, para cumprir o que prometeu ao
Nando, de irem à praça. Ela teria uma surpresa agradável. Além disso, o filhinho deles, quando escuta
uma canção, bate palminhas. Como sempre digo: o Tom é uma graça!
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