quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Toda ouvidos


Fecho os olhos e sou toda ouvidos 
para o pulsar dos corações em um abraço demorado.

Fecho os olhos e sou toda ouvidos 
para uma história envolvente.

Fecho os olhos e sou toda ouvidos 
para um riso solto, bem sonoro.

Fecho os olhos e sou toda ouvidos
para uma boa música:
melodia, ritmo, timbre, letra e voz.

Fecho os olhos e sou toda ouvidos 
em um beijo suave.

Fecho os olhos e sou toda ouvidos
para a beleza da Palavra.

Fecho os olhos e sou toda ouvidos 
para o movimento do vento 
e da água da chuva, do rio, cachoeira, oceano, lágrima.

Fecho os olhos em oração, 
deságuo angústias, sonhos, tormentos, alegrias 
e procuro ser toda ouvidos para Ele sempre.



terça-feira, 11 de agosto de 2015

Árvores


Quando criança, depois da aula, esperava meus pais virem me buscar na escola. Nessa espera, crescia em árvores. Contemplava árvores. Subia em árvores. Nomeava árvores. Sim, nomeava as árvores com as quais compartilhava dessa espera.

Árvore dos Sonhos. Era um plátano grande, de troncos espessos, que sustentavam uma ponte. Lugar de travessia, de olhar para o alto e ver folhas verdes, depois amarelas, laranjas,  marrons, leves, caindo, pairando pelo ar, como sonhos que se vão, ao vento, depois galhos secos, e, então, tudo outra vez,  novinhas em folha: verdes.

Árvore da Esperança. Essa não era tão grande, mas perene, sempre verde. Não era fácil de subir, mas era acolhedora para ficar lá, sentada, ou então subir até o topo e vê-la de folhas para baixo, também olhar para o horizonte, para além do pátio da escola.

Continuo, ao longo da vida, à espera do Pai. E essa espera pode acabar em um instante, mas pode demorar um pouco mais; porém, não precisa ser entediante, pode ser repleta de aventuras, de histórias, de árvores, de nomes, de Sonhos, de Esperança.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Jardins

    
    Nas dimensões da infância, a escola, as praças, as árvores, os professores, é tudo imenso. A vida parece não ter fim e, ao mesmo tempo, cabe inteira num instante: toda alegria explode num riso sincero, a birra num beiço que também não o deixa de ser. Os instantes passam e desfazem o momento, das migalhas forma-se a memória, do que cristaliza, doces recordações.
    
    Os corredores da escola já não são tão grandes, preenchidos por lembranças, momentos vividos, o que faz com que os mesmos olhos vejam de um outro modo. Os professores que por ali passam entram nas salas com a tarefa de ensinar e para isso não se desfazem do que verdadeiramente são. O conteúdo vem acompanhado por um jeito único de falar, rir, gesticular, ficar furioso. Sem demora, surgem as imitações, os risos. Crescemos, formamos opiniões, sentimo-nos grandes o suficiente para chacotear, porém não deixamos de ser crianças que gostam de imitar.

    Ao sair da escola, irrompendo em alegria, levaremos conosco não só um papel com a aprovação, mas também pedaços de profissionais que se doam – professores – semeando sonhos. E a nossa mente é, sem dúvida, terreno fértil, criando monstros, bobeiras, planos, além de minhocas e brincadeiras na cabeça.

    Quando entrei no jardim, encontrei uma professora acolhedora e amizades das quais usufruo até hoje. Lembro, também, de cuidarmos de uma lagarta e a vermos transformar-se em borboleta – incrível! – o que faz de mim apreciadora de jardins, de natureza em transformação.

    Ana Cristina apresentou-nos às letras com um Batalhão de Mário Quintana, deixando-me o gosto não só pela escrita, como pela poesia da vida em si. Mais tarde, viria a Roselaine colando estrelinhas por dedicação, a Sofia e a Aletéia com História e Música, e tantos outros com suas preciosas sementes. No Ensino Médio, o Elemar, professor de matemática, proclama “quem escolhe deixa!”, talvez a parte mais difícil em decidir – deixar para trás – mas imprescindível para seguir em frente; o que vimos nas lágrimas da Noeli ao ser escolhida paraninfa, em sua despedida, dissolvida no amor pelo que faz.



    E, por fim, a Lu com seus atenciosos rodapés, os quais guardo com carinho. Quem sabe um dia, de tantas sementes, letras, poesia, brote um livro em minhas gavetas, aquelas que organizam o pensamento em minha cabeça? Talvez. 



* Outro texto do Ensino Médio.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

À Procura das Borboletas



Ver, Sentir e Aprender. Esse era o título do primeiro- e único- livro que escrevi e editei, tudo em uma tarde que passei na empresa dos meus pais, quando criança. Há tempo queria escrever, aos seis anos reclamava por ainda não o saber. Queria ler livros, escrever diários. Talvez, porque me sentia de fora do, até então, código secreto das letras. Também almejava decifrar pessoas, sentimentos, histórias enletradas por aí.


Ver. Quando bebê, os meus olhos arregalados despertavam comentários do tipo “parece que ela quer ver além do possível”. De fato, sou observadora, investigativa e continuo gostando de desvendar mistérios, apesar de não mais subir em árvores para brincar de detetive.


Sentir. Da lista de nomes que minha mãe fizera, foi meu irmão quem escolheu, anunciando para quem chegava ao hospital: Simone. Mais tarde, descobri que o significado desse nome é a que escuta. Muito antes, porém, sabia o quão bom é ouvir, o que não deixa de ser sentir, ser tocado pelas vibrações que chegam ao ouvido. Ouvir músicas, histórias, conselhos, risadas, pássaros, cachoeiras e escutar com a alma é maravilhoso. Na hora de decidir a profissão a seguir, ouvir o coração não é o suficiente, além de nem sempre ser fácil, pois dentro de nós existem gemidos inexprimíveis que somente o Autor da existência é capaz de compreender. Tão bom saber que Ele conduz a sinfonia.


Aprender. Por vezes, pode ser tão difícil, pois não existem apenas números complexos e, sim, muitos conteúdos que exigem dedicação. Apesar de difícil, assim como crescer, é muito bom aprender. Posso afirmar, com certeza, que tive ótimos mestres, lições inesquecíveis. Jesus, o amor incondicional; pastor Rudi, desprender-se da vida com coragem, persistindo no amor, modelado como barro nas mãos do Criador; pediatra Silvana e professora Ana Cristina, cuidado, carinho e atenção, amor pelo que se faz e por quem se trata; meus avós, casamento que resiste ao tempo, amar e envelhecer juntos; família e amigos, amor fraterno, abraços, laços invisíveis.


Enfim, a decisão. Embora eu quisesse concluir esse texto com uma decisão, ainda procuro, espero, respostas. Sempre gostei de brincar de super-herói, de aventura, de sonhar, no entanto, sei que não posso, nem devo, fazer tudo que tenho vontade. Existe alguma coisa especial para eu fazer, assim como para cada pessoa. No meu caso, ainda não tenho certeza do que é, mas o que eu posso dizer é que minha vida vai ser sempre poesia, e, aonde quer que eu vá, não vou sozinha.


O que quer que eu faça, não irá ser grande - algo como salvar borboletas caídas na água, como fazia na infância - mas estarei alegre em simplesmente fazer parte desse jardim.






* Escrevi esse texto no Ensino Médio. Estava guardado em uma nuvem de arquivos antigos. Agora, voa por aí.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Bolo de milho




De onde venho, o verão é seco e cinza, o inverno é molhado e verde, as casas são coloridas e espaçadas: uma aqui, campo, bois, outra ali, campo, milho, macaxeira, outra lá. Mas as pessoas vivem perto, bem perto umas das outras, sabe?

Pronto, agora vivemos na cidade grande. Vivemos em casas empilhadas. Uma torre de pessoas, como blocos daqueles de montar. E, até ontem, ainda não conhecíamos quase ninguém. Ainda.

É que o dia amanheceu junino. E o prédio também. De manhã, abrimos a porta, e o corredor estava cheio de bandeirinhas, mas vazio de gente. Foi o que disse para minha mãe. Ela só suspirou: é… E teve uma ideia brilhante, dourada: bolo de milho.

Escreveu um bilhete e colocou no mural da portaria: bolo de milho e café  no 203, às 18 horas, sejam bem-vindos!

Já sentia o gosto de festa na memória, dentro da cabeça; mais tarde, nas mãos, ajudando a preparar o bolo; depois nos olhos, espiando pela porta do forno; então pelo nariz, cheiro do milho assando e do café borbulhando; pelos ouvidos, ao som da chegada dos convidados de camisas quadriculadas e da folia dos matutinhos.

Maria Antônia e Carlinhos trouxeram tapioca de coco com leite condensado; Socorro, paçoquinha; Gabriel, pipoca com manteiga; Nina, canjica;  Miguel, suco de cajá e de açaí; Pedro e Aninha, bolo de macaxeira caramelada; Bia, queijo coalho; Marilda, milho cozinhado, Dona Cândida, munguzá; João e Carol, sorda… e por aí vai: uma dança de quadrilha, de gente e de pratos, rodando pra lá e pra cá.

Precisava ver a cara de susto do meu pai diante de tanta gente por metro quadrado. Foi direto para o quarto. Será que ficou brabo?

Ficou, não! Saiu de lá com um violão empoeirado na mão. Tocou, cantou, bonito que só! Nem tão afinado, mas com uma boniteza, assim, muito da particular.

Na sala, o bolo de milho, de gente, de café e de música. O bolo foi partindo, diminuindo, boa noite, aqui, boa noite, lá, muito obrigado, aqui, até mais, lá, cheiro, aqui, cheiro, lá. Até que sobrou só nós três e o sono. Dormimos cheios de milho, de cheiros e de mimos.

No domingo, acordei com o cheiro de chuva. E de canjica, talvez munguzá… de um outro bloco da pilha? Será?




sexta-feira, 3 de abril de 2015

Ninhos


Tem gente que acorda cedo para procurar o ninho;
Tem gente que acorda sorrindo na esperança de formar um ninho;
Tem gente que acorda com o ninho cheio;
Tem gente que acorda com o ninho vazio;
Tem gente que acorda fora do ninho;
Tem gente que acorda sem ninho;
Tem gente que acorda e prefere voar sozinho;

Mas Ele vem para reunir o bando de todo canto.

domingo, 1 de março de 2015

Água leve água


Já reparou como na água as coisas ficam mais leves?


Sempre achei o máximo conseguir carregar pessoas muito maiores e mais pesadas dentro da água. Jesus fala em água da vida e em fardo leve. Nele conseguimos carregar o que é impossível fora dele.